terça-feira, 14 de julho de 2020

UM SONHO COM INVERSÃO DE AFETO PARA BURLAR A CENSURA ONÍRICA


“Um cavalheiro idoso foi acordado certa noite por sua mulher, que ficara alarmada porque ele estava gargalhando muito alto e desenfreadamente em seu sono. Mais tarde, o homem relatou ter tido o seguinte sonho: Estava deitado na cama e um cavalheiro que me era conhecido entrou no quarto; tentei acender a luz, mas não pude fazê-lo: tentei de novo, repetidas vezes, mas em vão. Aí, minha mulher saiu da cama para me ajudar, mas também não conseguiu. No entanto, como se sentisse embaraçada diante do cavalheiro por estar ‘*en negligé’ acabou desistindo e voltou para a cama. Tudo isso foi tão engraçado que não pude deixar de rir às gargalhadas. Minha mulher perguntou: “Por que você está rindo? Por que está rindo?”, mas apenas continuei rindo até acordar.  - No dia seguinte, o cavalheiro estava muito deprimido e com dor de cabeça; todo aquele riso o havia perturbado, pensou.

“O sonho parece menos divertido quando é considerado analiticamente. O ‘cavalheiro que lhe era conhecido’ e que entrara no quarto era, nos pensamentos oníricos latentes, a representação da Morte como o ‘Grande Desconhecido’ - uma imagem que lhe viera à mente durante o dia anterior. O idoso cavalheiro, que sofria de arteriosclerose, tivera boas razões, na véspera, para pensar em morrer. A gargalhada desenfreada tomou o lugar dos soluços e lágrimas ante a ideia de que deveria morrer. Era a luz da vida que ele já não conseguia acender. Esse pensamento sombrio poderia ter estado vinculado a tentativas de cópula que ele fizera pouco antes, mas que haviam falhado apesar da ajuda de sua mulher en negligé. Ele se apercebeu de que já estava descendo a serra. O trabalho do sonho conseguiu transformar a ideia sombria da impotência e da morte numa cena cômica, e seus soluços, em gargalhadas.”

*en negligé - despida ou de camisola.

                 (A interpretação dos sonhos ll -  pág. 91)


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